Traumatizadas com a morte recente de Rapunzel, cujo cabelo ficou preso na roda do carro, quebrando seu pescoço, e com o estado da Bela Adormecida que, recuperando-se de um desquite litigioso, está internada numa clínica fazendo sonoterapia, as quatro amigas mal conseguem tomar seu chá. Estes seus encontros semanais, outrora tão cheios de risadas, reminiscências e confidências, estão se tornando aborrecidos. Cinderela suspira.
- Sabem o que é? Nós estamos ficando velhas...
Chapeuzinho Vermelho ajeita, distraidamente, o seu chapeuzinho azul. Ela abandonou o vermelho depois de ouvir cochichos, no grupo, de que não renovava seu guarda-roupa. Ela é a única que não está deprimida. Atribui seu bom-humor permanente a um bom ambiente familiar, na infância. Ao contrário de Cinderela e Branca de Neve, vítimas de graves conflitos de gerações com suas madrastas, Chapeuzinho teve um bom relacionamento com sua mãe e admirava sua vovozinha, a que, depois do incidente com o lobo, declarou que tinha “nascido de novo”, fez uma plástica, casou com um dos caçadores e morreu na pista de uma discoteca, aos 98 anos.
- Você não pode se queixar da vida, Cin – observa Branca de Neve, cuja palidez denuncia noites de dissipação e o uso excessivo de barbitúricos. – Você casou com o príncipe, sua sapataria vai bem...
- Pois eu trocaria tudo isso pela minha juventude. E lembrar que um dia eu fui chamada de Pantera Borralheira ...
- E eu, gorda deste jeito e ainda chamada de Mariazinha...
Quem fala é a irmã de Joãozinho, protagonista de um famoso caso de desencaminhamento de menores na floresta. Ela come compulsivamente. Seu analista já lhe explicou que ela come para se autopunir por um sentimento incestuoso por Joãozinho, que também é enorme de gordo, foi à falência tentando transformar a casa de chocolate da bruxa numa atração turística (caçadores de souvenir comeram a casa) e hoje vende enciclopédias.
- Não me diga que você também sente falta dos velhos tempos, Branca – diz Chapeuzinho.
- Deus me livre! Vocês não imaginam o que era cuidar da casa para sete anões. Todos os dias fazer as sete caminhas, lavar sete cuequinhas...
- É verdade que...
- Não! Nunca! Uma vez um deles se embriagou e invadiu o meu quarto, mas eu o atirei pela janela. Foi depois desta noite que comprei um pequinês para me defender. Nunca houve nada.
- Bom, já que começamos com as confidências, vou contar do meu casamento com o príncipe, diz Cinderela.
- Vai dizer que também nunca houve nada entre vocês!
- Nada. Só o que ele queria era acariciar o meu pé. Acabei tendo um caso com o cocheiro.
- O tal que era um rato e virava cocheiro com o toque da varinha mágica?
- Olha, com o caráter dele, era um rato que com o toque da varinha mágica se transformava num rato maior.
- E o seu príncipe encantado, Branca? O que acordou você com um beijo depois da morte, depois que você mordeu a maçã envenenada. Você também se arrependeu?
- Só posso dizer, que comparando os dois, gostei mais da maçã.
- Mas depois ele ficou rei...
- Ficou rei e deu aquele vexame, desfilando nu pela rua.
- Eu não sabia que o rei daquela história tinha sido ele!
- Se é rei e fez bobagem, pode apostar que é meu. A única vantagem é que a nossa corte não precisa de bobo. Ele acumula as funções.
- Vocês é que são felizes – diz Cinderela, apontando para o Chapeuzinho e Mariazinha, que está com a boca cheia de biscoito. – Não tiveram “príncipes encantados” em suas vidas. Vejam a Bela Adormecida. Esta pelo menos teve a coragem de pedir desquite. Nós não podemos. Temos que preservar a nossa imagem. O tal “e viveram felizes para sempre...” é um compromisso moral. Não temos saída. Quer dizer, ninguém pode nos culpar por termos amantes. Eu não posso ver passar um rato sem usar a minha varinha. E a Branca pega qualquer um também.
- Não sendo anão...
- Nós fomos bobas, isso sim – continua Cinderela. – A Rapunzel continua com suas tranças porque seu príncipe encantado a proibiu de cortar os cabelos e olhem o que lhe aconteceu. Se existisse o feminismo no nosso tempo, nossas histórias seriam outras.
- Certo! Eu botava os anões a trabalhar para mim. E não me sentiria comprometida com o príncipe só porque o beijo dele me ressuscitou. Ele não me compraria por tão pouco!
- E eu, em vez de ficar em casa sendo maltratada pela minha madrasta e as duas irmãs, ia sair, arranjar emprego, estudar Comunicação, sei lá, com trabalho, perseverança, decisão – e a varinha mágica, claro – faria uma bela carreira e depois compraria um príncipe ou dois.
- Meu analista diz que a culpa do meu trauma de infância foi minha dependência excessiva do Joãozinho – diz Mariazinha.
- E eu me deixei enganar, inocentemente, por um lobo! – exclama Chapeuzinho. – Devia ter desconfiado que era ele e não a vovozinha em cima daquela cama porque ele estava fazendo tricô com um ponto que a vovó nunca usava!
- Enfim... – suspira Cinderela.
- O pior vocês não sabem – diz Branca de Neve. – O pior é que a história se repete. Outro dia, quando me dei conta, estava perguntando para o espelho do banheiro, lá em casa, se havia no mundo alguém mais bonita do que eu. Ele respondeu que sim. Fiquei furiosa e perguntei: “Quem?” E ele disse: “Você quer em ordem alfabética?”
Mas Cinderela não está ouvindo. Seu olhar está fixo num canto da sala. Lentamente, sem desviar o olhar, ela procura na bolsa pela sua varinha mágica.
- O que é, Cin?
- Ssshh. Acho que vi um rato. E dos grandes!
VERISSIMO, Luis Fernando. O rei do rock. Porto Alegre: RBS/Globo. 1978. P.70-3.